A Missão Médica Brasileira na Primeira Guerra Mundial

A Missão Médica Brasileira na Primeira Guerra Mundial

A Missão médica brasileira em Paris foi a prova de que o Brasil participou ativamente da Primeira Guerra Mundial. No dia 18 de agosto de 1917, partiu para Paris o navio contendo médicos, enfermeiros, farmacêuticos e militares brasileiros para a Primeira Guerra Mundial.

A delegação só não contava com um grande problema: a gripe espanhola. Confira, nesse artigo que o Estratégia Militares preparou para você, como foi essa missão!

Panorama da época

Anteriormente ao início da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha e a França buscavam aliados às suas causas por meio de convites a visitas, como a realizada pelo Marechal Hermes à Alemanha em 1910. Porém, com o início do conflito mundial, o Brasil declarou-se neutro.

Em 26 de julho de 1914, o país era governado pelo Marechal Hermes da Fonseca. Porém, quem comandou o país até o fim do conflito mundial foi Wenceslau Brás, sucessor do Marechal Hermes.

Mesmo tão distante do território europeu, as consequências do conflito alcançaram os países no continente americano. O Brasil era um grande exportador de café e a guerra provocou uma grande oscilação nas exportações, com efeitos negativos para a economia brasileira. Dois fatos acabaram motivando a entrada do país no conflito: 

  • O primeiro, foi motivado pela Inglaterra, principal consumidor do café brasileiro, que proibiu a sua importação sob a alegação de que os espaços dos navios mercantes deveriam ser destinados a produtos mais essenciais e vitais, como alimentos, armas e medicamentos; e
  • O segundo, foi a Alemanha ter autorizado o torpedeamento de qualquer navio – mesmo os de países neutros – que penetrassem nas zonas de bloqueio, o que tornava vulnerável qualquer navio mercante brasileiro ao tentar levar mercadorias para França e Grã-Bretanha, seus principais mercados europeus. 

Dessa forma, o bloqueio imposto pela Alemanha não foi acatado pela Marinha Mercante brasileira. Isso resultou no torpedeamento do navio Paraná, em 5 de abril de 1917, um dos maiores da marinha mercante brasileira. Ele estava carregado de café e, mesmo navegando de acordo com as exigências feitas a países neutros, foi atacado por um submarino alemão a poucas milhas do Cabo Barfleur, na França.

Oito dias após o afundamento, o governo brasileiro passou a sofrer inúmeras críticas e pressões da população por meio de manifestações que exigiam uma resposta ao ataque. No primeiro momento, as reações populares resultaram na demissão do Ministro das Relações Exteriores Lauro Muller, seguidas de ataques aos estabelecimentos comerciais e às propriedades de alemães e seus descendentes no país. Tudo isso culminou no rompimento de relações diplomáticas entre o Brasil e o Bloco Germânico, em 11 de abril de 1917. 

Posteriormente, o governo brasileiro confiscou 45 navios alemães que estavam em portos brasileiros, sob o argumento de servirem como indenização de guerra. Eles correspondiam a um quarto da frota mercante brasileira. 

De um total de 1,200 marinheiros alemães, cerca de 600 tripulantes destes navios apresados foram detidos na qualidade de “internados” e recolhidos ao Sanatório Naval de Nova Friburgo, onde a Marinha criou uma infraestrutura para abrigá-los. Mas mesmo com essas ações, o governo brasiliero manteve-se neutro com relação à guerra.

A criação do Hospital Franco-brasileiro em Paris

Assim, personalidades brasileiras de grande influência política na época se revoltaram. Dentre eles, Ruy Barbosa, advogado de formação e senador. Ele associou-se ao movimento destinado a criticar a neutralidade do governo brasileiro, chamado de Liga Brasileira pelos Aliados.

As articulações promovidas por Ruy Barbosa na liga e a abertura de hospitais de campanha em Paris por várias nações neutras, levou a Condessa Carolina da SIlva Ramos a mudar-se para o local e inaugurar o Hospital Brasileiro em Paris. A instituição seria mantida pelas doações oriundas de eventos de caridade e as organizadas pela Liga Brasileira pelos Aliados.

Dentre os integrantes da missão para criação e manutenção do hospital estavam clínicos e cirurgiões, farmacêuticos, enfermeiros e intendentes civis e militares. A direção da instituiçãol foi entregue ao Dr. Paulo da Silva Paranhos, filho do Barão do Rio Branco, o qual possuía dupla nacionalidade e morava em Paris na época.

Missão médica brasileira em Paris
Divulgação: WikiCommons / Durval Jr

O ataque dos alemães a navios mercantes brasileiros continuaram, tendo sido atingidos outros seis: Acari, Guaíba, Taquari, Tijuca, Lapa e Macau. Assim, aumentou a pressão da população sobre o governo brasileiro, até que foi decretado o Estado de Guerra contra a Alemanha. Isso aconteceu por meio do Decreto nº 3.361, de 26 de outubro de 1917, levando o Brasil a lutar ao lado dos Aliados. Foram assumidos três compromissos:

  • Envio da Divisão Naval em Operações de Guerra-DNOG, comandada pelo Contra-Almirante  Pedro  Max  Fernando  Frontin, para  incorporar-se  à  esquadra  britânica em Gibraltar;
  • Envio  de  aviadores  da  Marinha  e  do Exército para serem treinados na Real Força Aérea britânica e, posteriormente, partilhar de suas missões; e 
  • Envio  de  uma  Missão  Médica  Militar, composta de cirurgiões militares de carreira e  civis comissionados  em  patentes  militares,  para  atuar  em  um  hospital  de  campanha no teatro de operações europeu.

O decreto 13.092 de 10 de julho de 1918 criou a Missão Médica Especial de Caráter Militar.

“Presidente   da   República   dos   Estados  Unidos do Brasil, usando da autorização contida  no  decreto legislativo  no 3.361,  de  24  de outubro de 1917, resolve:

Art. 1º Fica criada, com o intuito de auxiliar o serviço de saúde dos nossos aliados, uma missão  medica especial  que  será  enviada  à  França, em caráter militar, a fim de manter um hospital  temporário  na zona  de  guerra,  enquanto esta durar.

Art. 2º O hospital terá a capacidade máxima de 500 leitos, até que o Governo autorize aumento, se assim julgar necessário” . [1]

A Missão Médica teve a participação de 86 médicos, número inferior aos mais de 200 voluntários que se candidataram a servir ao país na França. Embora  tivesse motivação  humanitária  de  assistência  aos feridos, tratava-se de um ato de guerra, pois suas atividades seriam desenvolvidas no teatro  de  operações  do conflito e, portanto, em territórios sob  administração militar.  

A  estrutura  militar,  já  largamente estabelecida e conhecida, evitaria um número elevado de atos administrativos estabelecendo normas de conduta, criação de cargos, estrutura hierárquica, vencimentos, direitos e deveres e penas disciplinares. Ou seja, toda uma estrutura legal para um tipo de missão para a qual não havia precedente no meio civil.

Tendo o Exército Brasileiro se declarado sem condições de enviar uma Força Expedicionária  à  Europa, enviou uma Missão Militar sob o comando do General Napoleão Felippe Aché. A Missão Médica Especial de caráter militar ficou subordinada a ela.

A missão médica brasileira e a gripe espanhola

Enquanto a missão médica se deslocava em direção à Europa, o navio foi infectado pelo vírus da gripe espanhola. A epidemia fez várias vítimas fatais. Dentre eles, soldados senegaleses que haviam embarcado no navio em Dakar, no Marrocos, além de quatro médicos da Missão Médica, sendo eles:

  • 1º Tenente Médico Scylla Teixeira;
  • 1º Tenente Farmacêutico José Brasil da Silva Coutinho;
  • 2º Tenente Intendente Octavio Gomes dos Passos; e 
  • 2º Tenente Intendente Paulo de Mello Andrade.

A doença é provocada pelo vírus Influenza A, H1N1A. As estimativas levantadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) calculam entre 40 a 50 milhões de mortes causadas pela gripe espanhola. 

Missão médica brasileira em Paris

Somente na Primeira Guerra, cerca de 15 milhões de combatentes faleceram pela doença. No Brasil, a epidemia provocou a morte de 300 mil pessoas. Entre elas o Presidente eleito Rodrigues Alves, que não chegou a ser empossado.

Ao chegarem na França, que estava vivendo o auge da epidemia da gripe espanhola, a maior parte dos médicos brasileiros foram distribuídos entre as várias províncias que compõem o estado francês para tratarem não só os feridos de guerra, mas também os infectados pelo vírus.

Isso foi feito para que os profissionais pudessem entrar em contato com as linhas de frente do combate e, assim, se familiarizarem com as técnicas médico-cirúrgicas empregadas pelos franceses e, posteriormente, poderem aplicá-las no Hospital Brasileiro em Paris.

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Referência

[1] BRASIL, D. O. D. U. D. 1. D. M. D. 1. Relatório enviado pelo chefe da Missão Médica Especial em caráter militar ao ministro da Guerra. Jusbrasil, 02 junho 2014. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/diarios/1748983/pg-14-secao-1-diario-oficial-da-uniao-dou-de-14-03-1919/pdfView>

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