O cafajeste e o transcendente
O diálogo perene entre o classicismo e o romantismo é substituído na vida literária atual do Brasil pelo desprezo que se votam o cafajeste e o transcendente. Na futura história literária de nossa época, naturalmente, será esquecida a grita que ambos levantam, que foi sempre a história um reduzir de gritos e vaidades à sua expressão mais simples. Por enquanto, porém, o que predomina em nosso terreno literário, a abafar as vozes discretas, é o zumbir dos cafajestes contra o murmurinho dos transcendentes.
Por cafajestismo, entendemos a organização de literatos e subliteratos, que não tendo embora estatuto ou profissão de fé, constitui uma sociedade de letras, com seus cacoetes, seus princípios, seus axiomas. Não disciplinados embora, a polícia que exercem na literatura é perfeitamente discernível.
O que singulariza o cafajeste (como também o transcendente) é a incapacidade para a síntese. A sua própria tese é evidente por si mesma a antítese alheia é uma estupidez não se preocupando o cafajeste com o esforço mental capaz de obter uma noção verdadeira ou sensata entre dois elementos antagônicos. Exemplos: o cafajeste é ateu e desairosos são os crentes aos olhos dele. O cafajeste gosta de música popular e é pedantismo na sua opinião apreciar Beethoven ou qualquer outro clássico.
O cafajeste é contra a cultura, não de maneira direta, mas através de uma atividade oblíqua contra tudo que represente erudição, sutileza e profundidade. Para ele, não há nada mais ridículo do que o sr. Otto Maria Carpeaux, ninguém mais desprezível do que o sr. Otavio de Faria nenhuma preocupação mais vergonhosa do que a de eternidade. Na literatura estrangeira, o cafajeste jejua de tudo que não lhe fere a maneira de ser e pensar. Não se arrisca a destruir a obra de um Proust ou de um Rilke, e até mesmo costuma respeitar à distância nomes como estes dois.
Entretanto, põem um fervor exagerado na admiração por um Zola ou um Rabelais, não sob todos os aspectos, mas no que estes escritores representam o cafajestismo internacional.
Não se confunde o cafajestismo com a subliteratura. Trata-se, pelo contrário, de um comportamento bem definido perante a existência, quase uma filosofia. O cafajeste não é o escritor de mau gosto. Absolutamente. O cafajestismo tem dado alguns escritores de raça dos melhores que temos. São os corifeus do cafajestismo, indivíduos cujo talento vivifica o bando de mediocridades que constitui o grosso do movimento.
(Paulo Mendes Campos. Crônicas.)
Compreende-se do texto, com relação ao posicionamento do autor, que ele