TEXTO II:
A BRIGA NA PROCISSÃO
Quando Palmeira das Antas
Pertencia ao capitão
Justino Bento da Cruz
Nunca faltou diversão.
Vaquejada, cantoria,
Procissão e romaria
Sexta-feira da Paixão.
Na Quinta-feira Maior
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reunia os moradores
Depois duma Preleção
Ao lado do capitão
Escalava a seleção
De atrizes e atores.
O Papel de cada um
O Capitão escolhia,
A roupa e a maquiagem
Eram com dona Maria
O resto era discutido
Aprovado e resolvido
Na sala da sacristia.
Todo ano era um Jesus
Um Caifás e um Pilatos,
Só não mudavam a cruz
O verdugo e os maltratos.
O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-flor,
Caifás foi o Cipriano
Pilatos foi Nicanor.
Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão.
Cristo conduzindo a cruz
Foi não foi advertia
O centurião perverso
Que com força lhe batia
Era pra bater maneiro
Mas ele não entendia.
Devido um grande pifão
Que bebeu naquele dia
Do vinho que o capelão
Guardava na sacristia.
Cristo dizia: "Oh" Rapaz ...
Vê se bate divagar
Já tô todo encalombado
Assim não vou aguentar,
Tá cá gota pá doer
Ou tu para de bater
Ou a gente vai brigar.
Jogo já essa cruz fora
Tô ficando revoltado
Vou morrer antes da hora
De ficar cruxificado."
O pior é o que o malvado
Fingia que não ouvia
Além de bater com força
Ainda se divertia
Espiava pra Jesus
Fazia pouco e dizia:
"Qui Cristo frouxo é você
Qui chora na procissão?
Jesus, pelo qui se sabe
Num era mole assim não.
Eu to batendo com pena,
Tu vai vê o qui é bom
Na subida da ladeira
Da venda de Finelon
O couro vai ser dobrado,
Até chegar no mercado
A cuíca muda o tom."
Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão,
Era Quincas que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco
Pra cima de Bastião.
Se travaram no tabefe
Ponta-pé e cabeçada
Madalena levou queda,
Pilatos levou pancada,
Deram um bofete em Caifás
Que até hoje não faz
Nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão,
O cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco
Que ficou desacordado
Na careca de Timote
Que até hoje é aluado.
Até mesmo São José
Que não é de confusão
Na ânsia de defender
Seu filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão.
A briga só terminou
Quando o doutor delegado
Interveio e separou
Cada santo pro seu lado
Desde que o mundo se fez
Foi esta a primeira vez
Que Cristo foi pró xadrez
Mas não foi crucificado.
(Disponível em: http://www.antomiomiranda.com.br/poesia_brasis/paraibaíchico_pedrosa.htm - Acesso em: 25/09/2017)
A poesia de Chico Pedrosa é rica e pura ao mesmo tempo; se, por um lado, guarda relatos preciosos da historiografia universal e bíblica, alinha a isso, por outro lado, um linguajar natural, revelador das nuances sertanejas e livre das lapidações da gramática tradicional.
Em todos os itens, os trechos revelam traços dessa linguagem não lapidada, ou seja, apresenta forma divergente da gramática normativa no quesito ortografia, EXCETO: