Questão
Escola de Sargento das Armas - ESA - Geral/Aviação
2000
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000014466
O GATO MALHADO

Quando a primavera chegou, vestida de luz, de cores e de alegria, olorosa de perfumes sutis, desabrochando as flores e vestindo as árvores de roupagens verdes, o Gato Malhado estirou os braços e abriu os olhos pardos, olhos feios e maus. Feios e maus, na opinião geral. Aliás, diziam que não apenas olhos do Gato Malhado refletiam maldade, e sim, todo o corpanzil forte e ágil, de riscas amarelas e
negras. Tratava-se de um gato de meia-idade, já distante de primeira juventude, quando amara correr por entre as árvores, vagabundear nos telhados, miando à lua cheia canções de amor, certamente picarescas e debochadas. Ninguém podia imaginá-lo entoando canções românticas, sentimentais.

Naquelas redondezas não existia criatura mais egoísta e solitária. Não mantinha relações de amizade com os vizinhos e quase nunca respondia aos raros cumprimentos que, por medo e não por gentileza, alguns passantes lhe dirigiam. Resmungava de mau humor e voltava a fechar os olhos como se lhe desagradasse todo o espetáculo em redor. 

Era, no entanto, um belo espetáculo, a vida em tomo, agitada ou mansa. Botões nasciam perfumados e desabrochavam em flores radiosas, pássaros voavam entre trinados alegres, pombos arrulhavam amor, ninhadas de pintos recém-nascidos seguiam o cacarejar da orgulhosa galinha, o grande Pato Negro fazia a corte à linda Pata Branca, banhando-a na água do lago. Folgazões, os cachorros divertiam-se saltando sobre a grama.

Do Gato Malhado ninguém se aproximava. As flores fechavam-se se ele vinha em sua direção: dizem que certa vez derrubara, com uma patada, um tímido lírio branco pelo qual se haviam enamorado todas as rosas. Não apresentavam provas, mas quem punha em dúvida a ruindade do gatarraz ? Os pássaros ganhavam altura ao voar nas imediações do esconso onde ele dormia. Murmuravam inclusive Ter sido o Gato Malhado o malvado que roubara o pequeno sabiá do seu ninho de ramos. Mamãe Sabiá, ao não encontrar o filho para o qual trazia alimento, suicidou-se enfiando o peito no espinho de um mandacaru. Um enterro triste e naquele dia muitas pragas foram pronunciadas em intenção do Gato Malhado. Provas não existiam, mas que outro teria sido ? Bastava olhar a cara do bichano para localizar o assassino. Bicho feio aquele.

Os pombos iam amar longe dele: havia quase certeza de que fora ele quem matara - para comer - a mais linda pomba-rola do pombal, e, desde então, certo pombo-correio perdeu a alegria de viver. Faltavam as provas, é verdade, mas - como disse o Reverendo Papagaio - quem podia tê-lo feito senão aquele sinistro personagem, sem lei nem Deus, tipo à-toa?

As maternais galinhas ensinavam aos pintos cor de ouro como evitar o Gato Malhado em cujas mãos criminosas segundo afirmavam - muitos outros pintainhos haviam perecido (isso sem falar nos ovos que ele roubava dos ninhos para alimentar seu ignóbil corpanzil). Tampouco o Pato Negro queria saber dele, pois o gatarrão não amava a água do lago, tão querida do casal de patos. Os cachorros o
haviam procurado para com ele correr e saltar. Mas ele os arranhara nos focinhos e os insultara, eriçando o pelo, xingando-lhes a família, a raça, os ascendentes próximos e distantes.

( O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Uma História de Amor)

(JORGE AMADO -Itabuna, BA, 1912)

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