Questão
Escola Naval - EN
2006
4000007869
Discursiva
DOIS A MENOS 

Dois a menos para encher a gente! É o único jeito de acabar com esses bandidos. Ouço esse tipo de frase desde que a polícia matou, na noite de segunda-feira dia 10, dois sujeitos que haviam roubado meu carro, 24 horas antes, apontando um revólver 38 contra a minha cabeça. Todo mundo se interessa em ouvir a história, quer saber como tudo aconteceu, se horroriza com a parte do revólver. Mas muito poucos se chocam com o fato de os assaltantes terem sido mortos ao resistir à prisão. A maioria gosta, acha que o fim deles devia ser esse mesmo. 

Quanto a mim, esclareço desde já, não desejava esse fim para eles mas o fato não me chocou, pela simples e assustadora razão de que eles poderiam ter-me matado. Se, na hora do assalto, eu tivesse feito algum gesto que os assaltantes interpretam como reação, eles certamente teriam puxado o gatilho. Na roleta da vida, deu bingo para mim. 

Susto à parte, o que me impressionou foi a cultura de apoio A eliminação de bandidos que encontrei disseminada entre todos os tipos de pessoa, das classes altas as baixas — é, principalmente nas baixas. Impressionou-me, também, a quantidade infinita de histórias de violência que as pessoas têm para contar — ao fim das quais execram os bandidos e se alegram quando eles são eliminados. A experiência pessoal, indispensável, diga-se de passagem, possibilitou-me perceber que há na população um forte consenso favorável a um violento processo de eugenia — sendo que, nesse caso, a minoria a ser eliminada seria a de criminosos. 

O problema está em que essa minoria tem ficado cada vez maior nas cidades brasileiras, a ponto de ninguém mais poder viver com tranquilidade. Está também no fato de que a velocidade com que este país produz marginais exigiria um processo de extermínio que jogaria nossas ruas em uma guerra civil. 

Ou seja, matar os bandidos não é a solução final a não ser por motivos éticos e humanitários, mas simplesmente porque não funciona. A cada um que tomba, quantos estarão nascendo? Fábricas de criminosos não faltam. Um chofer de táxi me contou, orgulhoso, que conseguirá educar e encaminhar seus filhos para o trabalho, mas que uns oito meninos que conviveram com eles, na vila de periferia onde moravam, tinham virado marginais. "Felizmente, aqui uso a expressão dele, “todos tinham sido assassinados”. Sabem por quem? “Por uma quadrilha de pivetes de uma vila vizinha, pois estavam atrapalhando seus negócios..." 

A solução, claro, é fechar, ou pelo menos diminuir significativamente, as fábricas de criminosos. Perfeito, diriam um otimista. Vamos fazer o país crescer, criar empregos, investir em educação e pronto. Se fosse fácil assim, porque já não teria sido feito? E quem disse que o problema se resume a questões de estrutura social e económica? E as mazelas morais, familiares, comportamentais? E a responsabilidade de cada um? 

O show de corrupção que Brasília tem mantido em cartaz nos últimos tempos, o egoísmo das elites, que não abrem mão de um centavo de sua dinheirama, o bangue-bangue que está sendo travado na área sindical wav estimulou a população a imaginar que seja possível eliminar as fábricas de criminosos. Se os que estão lá em cima, os condutores do país não é assim que se diz? -—, não praticam a virtude, por que os de baixo, que vivem mal, vão praticá-la? O negócio é entrar na geléia geral e brigar por um prato de comida com unhas e dentes. Ou melhor, a bala! 

Pelo que pude perceber, os rapazes que me assaltaram não eram totalmente profissionais, embora já tivessem passagem pela política. Queriam gozar um pouco dos confortos da classe média, passeando em um carro bonito, usando roupas de grife. Gostaram tanto que se esqueceram de abandonar o carro e resistiram à prisão. De sua parte, os que têm acesso a esses bens também gostam muito deles e acham que quem ousa roubá-los merece morrer.     

Moral da história: essa história não tem moral, é uma obra aberta que está sendo vivenciada por todos nós diariamente. Se vamos para uma guerra civil ou assistiremos ao triunfo dos otimistas que acham que o país tem conserto, depende de nós. Quanto a mim, já adianto que não gostaria de levar o resto da vida dentro de uma brincadeira. 

(Luiz Roberto Sorrano. Revista Veja, ed. 1324)

Qual a classificação morfológica da palavra como, presente no primeiro parágrafo ?